LANOS E SONHOS PARA O TRAMWAY DA CANTAREIRA

A reportagem é de 1933, mas a foto era de 1927. Interessante a precisão: "trinta e tantos quilômetros concluídos"... (Correio de São Paulo, 11/1/1933)
Janeiro de 1933. O Tramway da Cantareira era cada vez menos romantismo e cada vez mais um ralo de dinheiro. Ferrovia mal feita, pois foi construída nos anos 1890 não para atender passageiros, mas sim para levar material para a construção do reservatório da Cantareira num dos pontos mais altos do município de São Paulo, seria, como muitas outras, extinta e desmontada depois dos trabalhos concluídos.

Porém, alguém achou que o novo parque era um ligar muito bonito e ótimo para piqueniques sem precisar se aventurar muito para o interior. Se bem que, naquela época, o reservatório também ficava no interior... um interior próximo. Com um trem para levar as famílias interessadas, então, nem se fala. E tudo mudou.
A ferrovia ainda atendia algumas empresas no seu caminho, bem como pedreiras, e foi, em 1917, até feito o prolongamento até Guarulhos de um ramal que chegava ao Guapira, no Jaçanã, não tanto para passageiros, mas para passageiros especiais que se internariam no novo asilo construído por aquelas bandas em 1910.
Agora, a Cantareira passava a ser mais um trem de subúrbios na cidade. Um metrozinho a céu aberto... que chamassem como quisessem. Dava para passear no Horto Florestal, também. Construíram até um anel que levava o trem até ele e retornava quase no mesmo local, nas bandas do longínquo bairro do Tremembé, que depois, por um tempo, também foi Tremembeí.
O seu traçado, no entanto, não era dos melhores, especialmente porque passava pela região de Santana, onde a as rampas eram constantes e os trens rodavam vagarosamente, com curvas e mais curvas como, por exemplo, na atual avenida Luiz Dumont Villares.
Começaram então a brotar ideias: como fazer para o trem deixar de dar tanto prejuízo sem deixar, ao mesmo tempo, de atender as populações carentes de transporte nesses, na época, afastadíssimos bairros?
Pois é, em 1933 uma reportagem no jornal Correio de São Paulo falava que o Tramway deveria ser incorporado à Sorocabana (e de fato foi-o, mas quase dez anos depois). Depois, deveria ser prolongado até a cidade de Santa Isabel, a partir de Guarulhos (o máximo que se fez, em 1947, foi estender o ramal até a Base Aérea de Cumbica), dali, avançar para a divisa de Minas e se juntar a "alguma linha da Rede Sul-Mineira e ligar São Paulo a Belo Horizonte" (pela Cantareira? Já pensaram?)... ligar também com a E. F. Campos do Jordão...
Enfim, eram planos sérios? Conversas de engenheiros em bares captadas por repórteres que a tudso escutavam? Falava-se tudo isso aparentemente sem grandes estudos de rentabilidade, sem se citar retificações e melhoras de vias permanentes... pelo menos nas reportagens.
De qualquer forma, é interessante relembrar essas discussões, que, por mais amadoras (ou mesmo profissionais) que fossem, eram jogadas ao léu para os leitores que ficavam imaginando melhoras e pioras.
Finalmente, depois de mais centenas de reportagens nos trinta anos seguintes sobre "como salvar o Tramway da Cantareira", a ferrovia fechou, largando seus passageiros ao léu mesmo, quando o acesso, em 1964 e 1965, ás mesmas regiões continuavam muito ruins. Eu conheci muitos desses acessos e me lembro. E a cidade perdeu um trem de subúrbio. Em alguns trechos o metrô o substituiu, mas em outros, como Guarulhos, nada aconteceu.
Matéria extraída do
 Mais uma vez  lembro da Estação Tamanduateí, ponto inicial do trenzinho
da Cantareira, ficava na esquina das ruas João Teodoro e da Cantareira.
No passado muitos pic-nics ou como eram descritos nos convites, conves -
cotes saíam dessa estação rumo ao Horto Florestal , onde havia uma matinê
dançante famosa, a do C. A. Silvicultura ou ainda em direção à Vila Galvão , onde passeavam num belo parque.
Vocês hão de estranhar quando falei de convites, sim eram vendidos convites
aos citados convescotes, animadíssimos. Vocês da média guarda, se lembrarão
daquela música "A volta do pic-nic" com Wanderley Cardoso.