O GALÃ LUSO

Jayme Antonio Ramos
Corriam os anos 40 , o mundo abalado pela II Guerra Mundial.
Os hábitos mudando rapidamente , principalmente na nossa ci-
dade, onde o progresso era constante , inclusive víamos por
toda parte o lema "São Paulo, a cidade que mais cresce no
mundo!".
Rita Adelaide vivia no seu mundo de sonhos, fazendo seu en -
xoval, como era o costume na época, excelente e prendada mo -
ça de família. Não trabalhava fora , hábito em transformação,
mas muito arraigado ainda nas famílias paulistanas em geral e
parienses em particular.
Tinha um noivo, o português Manoel Aleixo, tido como bom par-
tido por todos, dado aos seus bons hábitos de bom moço, reli-
gioso, respeitador e trabalhador. Porém a vida de Aleixo era
digamos, um mistério, não tinha parentes no Brasil, não rece-
bia cartas de Portugal ( ah, meus parentes são analfabetos di-
zia e muito pobrezitos também ).
Um dia, veio a bomba , Aleixo encontrou um conterrâneo no bair-
ro, inclusive da mesma aldeia. Abraçaram-se , até choraram de
emoção, aí vieram as perguntas, onde moras? o que estás a fazer?
estás só?
Diante do constrangimento de Aleixo, seu amigo o Arthur, passou digamos
a vigiá-lo .
E como dizia o velho seu André, do qual já falei, filho de escra-
vos, analfabeto , mas um sábio, como diria o velho seu André ,
após uma pitada no seu velho pito de barro:"Quem procura , acha,eheheh ".
O Arthur viu o Aleixo com sua noiva um domingo de braços dados e
até com uma prima segurando vela , conforme costume, saindo do
cine Rialto, os dois pombinhos, enamorados, românticos e entu -
pindo a vela de Sonhos de Valsa e pipocas doces, para que a mes-
ma não visse os beijos e abraços , um pouco mais ousados.
Não deu outra, Arthur , deu a volta no quarteirão e os encontrou
de frente e manifestando surpresa os saudou efusivamente.
Diante de tanta festa , Rita interpelou Aleixo, tão logo Arthur
se afastou, quem é?como? tu disseste que não tinhas ninguém aqui
e se é amigo do trabalho, porque ele disse há quanto tempo.
Bom, não precisamos dizer que a priminha segura vela, seguiu a ris-
ca sua missão , de nada adiantando o suborno e promessas de cai-
xas de bombons, sandálias novas , etc.
Após indagada, veio o relatório completo.
Foi uma encrenca total !
Diante de tantas perguntas e com o Arthur rodando a casa de Rita
cada vez mais, Aleixo lhe deixou a incumbência de comunicar à fa -
mília da noiva a notícia , pois temia agressões, xingamentos de
seus vários parentes.
Aleixo voltou a Portugal e Arthur entrou na casa de Rita, falando
a verdade e o criticando ferozmente para que não sobrasse para ele também.
Importante, Arthur era cunhado de Aleixo, cunhado, irmão da espo-
sa de Aleixo e tio de quatro lindos miudos, o Manel, o Quim, o To-
nico e o Tuzito, afilhado do alcaguete.
Depois desse dia, foi uma gozação da parte de alguns vizinhos e uma revolta da parte da maioria, procuraram sem sucesso, pois não sabiam onde o Dom Juan morava , até na agência de viagens foram procurá-lo, mas já era tarde , seu nome constava da lista de passageiros de um
navio que já havia partido para a santa terrinha há alguns dias.
A repercussão do acontecimento eu contarei nas próximas vezes.