NHOLA, O MALANDRO

JAYME ANTONIO RAMOS

Havia lá pelos anos 60, 70 e 80 no Pari, vários bons de lábia, autênticos vigaristas,
sempre em busca de alguma vantagem em tudo, cerrrto ?
Seguidor da filosofia da anti-violência, da paz e da política da boa vizinhança, auxiliava deficientes a atravessar as ruas , dava esmolas gordas a quem as solicitava, nos períodos de vacas gordas, pagava rodadas de bebidas e petiscos a amigos e frequentadores dos bares do Pari.
Seu casamento durou apenas dois meses, pois contava à sua noiva sobre os seus bens,
heranças prestes a serem recebidas do exterior, primos assessores de sultões, reis,
dinheiro que estava para sair de desapropriações, enfim mil miragens. Quando a verdade veio a tona, sua esposa desquitou-se imediatamente.
Cunhado convicto, cansou de lesar a irmã Fabíola e consequentemente o cunhado o próspero industrial Heriberto, que jurava nunca mais falar com ele.Mas, Nhola, não guardava rancor, após ser xingado , pego pelo colarinho depois de mais um golpe, deixava a poeira sentar. Levava os dois sobrinhos que o adoravam ao circo, tirava fotos com o macaco , com o elefante, levava aos parques, aos cinemas, brincar nos shoppings, sem conhecimento da irmã e do cunhado pois combinava tudo com a sua mãe, a mãe, sempre elas, paciente, Da. Elpídia. Na hora de levar as crianças para casa , Nhola fazia questão dele mesmo levar, com brilho nos olhos os pimpolhos relatavam tudo que tinham visto num domingo divertido. Claro , levava flores mimosas para a irmã, que adorava recebe-las e alguma lembrança , uma camisa autografada , uma flâmula, um livro sobre o São Paulo, de quem Heriberto era fanático torcedor. Claro, quebrado o gelo , Nhola já havia passado na pizzaria e dava a sua contribuição para o lanche de domingo à noite.
Dinheiro? ah, como já disse o poeta, dinheiro não é problema é solução! cheques sem fundo , dinheiro obtido com pequenos golpes amenizando a bronca da irmã e do cunhado.
Em 1976, organizou no Pari, uma caravana monstro ao Maracanã na célebre Invasão Corinthiana. Vários onibus com torcedores em polgados, ajudaram o Corinthians naquela célebre vitória frente a máquina do Flu. Meses depois organizou uma outra caravana, recebeu o dinheiro de todos e na hora de embarcarem , onde estão os onibus? nada, ficou com o dinheiro e não houve caravana.
Vendeu um volante da Loto, como se fora premiado a um bilheteiro incauto, que ao chegar no prédio do Largo da Concórdia para receber o dinheiro, quase foi preso por fraude, pois o volante ainda não havia corrido.
Ao Mário , então dono do bar Pif-Paf, pediu em prantos dinheiro para fazer o enterro do pai, um engôdo, meses depois esqueceu-se, falha imperdoável para um malandro, foi pedir de novo ao Mário, com o mesmo motivo. Recusado o pedido, com as devidas explicações, ele afirmou que na verdade quem havia morrido era o seu padrinho , considerado por ele como um segundo pai e conseguiu um novo empréstimo.
Levou um seu amigo , ingênuo, o Inocêncio a uma boate de terceira categoria no centro, comeram , beberam, deram e levaram beijinhos das moças, na hora de pagar a metade conforme o combinado, disse que ia ao banheiro e deixou a despesa com o seu "amigo", ameaçado pelos leões de chácara do estabelecimento. Dois anos depois de relações cortadas, Nhola, procurou seu amigo e em nome da velha amizade pediu perdão e em sinal de verdadeira amizade , convidou o amigo a comemorarem o reatamento na mesma boate. Lançou a rede e Inocêncio pensou que era chegada a hora do troco.
Lá estavam os dois bebericando, beliscando petiscos e bumbuns, aquela alegria, quando Inocêncio disse que devido a cerveja e tal iria ao banheiro. Caiu na rede é peixe, pensou Nhola, Inocêncio fugiu , Nhola não se abalou chegou ao gerente da boate e disse que havia sido convidado para vir à boate, que comentou que não tinha dinheiro e o Inocêncio falou que bancava a despesa e que ele havia sido vítima de um golpe traiçoeiro. Diante da cara de poucos amigos do gerente, acostumado a houver muitas histórias iguais a essa e com os seguranças já arregaçando as mangas para agredi-lo, Nhola falou que sabia onde o safado morava e que os levaria até lá, era perto, no Canindé e tal. Finalizando, pegou um taxi , levou à casa do inocente Inocêncio, que para que não houvesse escândalo em plena 3 hs da madrugada de um dia de semana, pagou a despesa , o taxi de ida e volta do pessoal e ainda foi chamado de caloteiro por Nhola .
Observador , como todo bom golpista, atento ao movimento de tudo e de todos , percebeu que um hotel do Canindé, de madrugada , o porteiro, atendia a portaria, fazia os lanches , servia aos quartos e observou que o liquidificador e a máquina de fazer suco eram barulhentas, não se fez de rogado, como estava duríssimo e jamais aceitou das inúmeras mulheres com quem saía um centavo sequer, ficou pronto juntamente com a sua companheira de alcova de plantão , pediu um suco e uma vitamina, na hora que o porteiro ligou as geringonças na cozinha que ficava nos fundos do hotel ele saiu de fininho sem fazer nenhum barulho e quando o porteiro dirigiu-se ao quarto e após cansar-se de bater na porta experimentou virar a maçaneta e viu embasbacado e boquiaberto que havia sido vítima de um golpe que ele, com 30 anos de porteiro de hotéis, jamais vira.
Enfim Nhola, morreu com apenas 40 anos , vitimado por um derrame cerebral fulminante e no velório ninguem acreditava que ele havia morrido, pensaram que de repente ele iria levantar, que era mais um golpe dele. Parece que ele sabia que viveria pouco e queria que todos colaborassem de forma escusa até, da sua caminhada alegre por este mundo .
Alternava momentos de solidariedade, de caridade, de altruísmo , com momentos de um verdadeiro jogador de damas,jogo no qual era exímio , armando verdadeira ciladas, a vida para ele era um autêntico jogo . Um desses momentos de ajuda , de colaboração, tivemos o Livro de Ouro do Pedaço da Alegria F. S., que ele correu pelo Pari, conseguindo polpudas ofertas e não desviou um centavo, entregando Livro e dinheiro à Diretoria do clube e mandou conferir , tudo isso com toda a pompa e circunstância num horário nobre do Pif-Paf. Os que duvidaram que ele traria dinheiro e assinaturas, ficaram pasmos e ele todo vitorioso, clamava aos quatro ventos o seu lema de honestidade : " O que é certo, é certo ".