O               QUADRO                 DA       FALECIDA

 

JAYME ANTONIO RAMOS

Aristodemo Bonelli, com dois eles, que ele fazia questão de frisar.

Um eterno apaixonado,mas apaixonado pelo passado, já havia se tornado uma idola-

tria, eterno apaixonado pela Anunziatta, sua esposa, um detalhe importante,  já falecida há décadas. Quando eu disse idolatria, era o termo exato pelo culto da Falecida, sim com f maiúsculo. Já se tornara um nome próprio, pois quando ele se referia a Anunziatta, ele solenemente, tirava o chapéu, que protegia a calvície da garoa paulistana, exclamando: "  A Falecida ! "

Na principal parede da sala, acima do sofá, lá estava na parede, o grande retrato da Falecida, embaixo do quadro uma prateleirinha, com um vaso de cristal, sempre com flores frescas, flores as mais lindas.

Um outro detalhe importante , Ari, como era conhecido, era casado sim e o casal se dava muito bem. A esposa fora incumbida quando se casou com Ari de inúmeras tarefas, inclusive segundo ele, de cuidar das flores. Nos dias de muito calor, bastava uma flor ficar meio murcha, Ari gritava para a esposa atual vir cuidar : " Paulina cuida das flores, uma delas está meio murcha! "

Todos achavam estranha aquela situação, até os filhos do casal Ari e Anunzia criticavam e achavam esquisito  o comportamento da Paulina, com toda a paciência que Deus lhe deu.

O casal veio morar no Pari , segundo eles, proveniente do Butantã.

Um dia, sempre tem esse dia, um carteiro foi transferido da região do Butantã para o Pari e foi aquela festa, pediram para entrar, tomar um cafezinho com bolachas, etc.

O casal se dava muito bem com toda a vizinhança, era um casal maravilhoso diziam todos, sempre solícitos. Porém, China, o carteiro espalhou um fato que deixou todos boquiabertos.

Paulina era irmã da Anunziatta e tinha às escondidas um caso com o cunhado, o Ari, oh !

Sim , agora tem mais, disse China a todos da rua, uma tarde , Anunziatta veio mais cedo do trabalho, pediu para a chefe liberá-la mais cedo, pois estava com uma enxaqueca tremenda.

Quando ela chega em casa, ve na sua cama , o marido aposentado, o Ari, com a Paulina,sua irmã em colóquio amoroso . Foi um grito lancinante, que toda a vizinhança ouviu , seguido de uma forte dor de cabeça e um infarto fulminante, seguido de morte.

Os dois conseguiram abafar parcialmente, porem passados alguns meses, os dois voltaram ao romance e resolveram mudar para um bairro bem distante, onde com certeza não conheceriam ninguem.

Mudaram para o Pari, não sem antes, ou por remorso, ou sei lá o que, resolveram se penitenciar

perante a falecida com um quadro em lugar de grande destaque da casa.

Ninguem sabia do caso no Pari e o fofoqueiro  espalhou a notícia.

A notícia caiu como uma bomba e nunca ninguem ousou perguntar ao casal da veracidade da notícia.

Até hoje , os mais antigos quando se referem a este caso ainda mostram incredulidade e fazem a clássica pergunta: " SERÁ ?  "