Conforme vou relatando as histórias, mais e mais vão surgindo na minha memória e mais e mais me

são relatadas. É bom lembrar que minha mãe, dona Maria Rosa, do alto dos seus 89 anos e graças a Deus, bem lúcida é a minha principal fornecedora desses acontecimentos.

Como por exemplo a história do Bino, um verdadeiro estraga-prazeres. As pessoas para provoca-lo falavam de filmes que haviam assistido, de músicas, de artistas, enfim de toda gama de assuntos.

Nada agradava a Bino, ele franzia o seu nariz, meneava a cabeça e vinha a crítica implacável, uma verdadeira pá de cal no entusiasmo de qualquer um.

Várias excursões foram organizadas para as Sete Quedas, antes delas serem cobertas pela Represa de Itaipu. Bino foi convidado para uma delas e retrucou para que andar tantos quilometros para ver só sete quedas, se quando chovia na sua chácara em Mairiporã , pertinho, pertinho ,ele

via mais de trinta quedas dágua.

Filmes então, quando se narrava , ele vinha como um raio, a história é sempre a mesma, é mocinho que gosta da mocinha e no fim ficam sabendo que são irmãos. É rapaz que fica cara a cara com o bandido que assassinou o seu pai quando era criança. Música então só gostava de cantores que tinham vozeirão, cantores como Caetano, Chico, Jorge Ben, etc eram tachados de locutores musicados , nem se comparavam com Beniamino Gigli, Enrico Caruso, Vicente Celestino e outros.

Cinema brasileiro ele abominava , dizendo que era um bando de canastrões, que não atuavam com naturalidade, como os astros e as estrelas de Hollywood e aí Bino desfiava uma relação que vinha lá de Mary Pickford, Carlitos, Clark Gable, etc.

Suas críticas quanto às letras de MPB, o barquinho, a bandinha, o banquinho da praça, a garotinha de Ipanema, dizendo que eram letras óbvias demais. Quando falava-se nas músicas de anoitecer ou amanhecer, ele vinha vociferante: -" o anoitecer e o amanhecer são a mesma coisa, depende do lado que se olha, se é pro lado da Zona Leste ou se é para o Pico do Jaraguá".

Futebol então era uma grande bobagem. Jogo de poucos pontos, que a bola ficava mais parada do que em movimento. Crítico feroz dos times grandes, o Corinthians era o time dos calções sujos, o São Paulo era o  dos calções largos e compridos que pareciam um saco. O Santos era um time insosso, de praia, depois do Pelé, só acontece alguma coisa de vez em quando, o Palmeiras era um time de diretorias que não se definem se é um time de italianos ou se é um time brasileiro, portanto tem até hoje uma grande crise de identidade.

Mas no fundo era uma pessoa boa , o que queria era chocar, levantar polêmica, que no final da conversa viravam brincadeiras, tal o deboche que ele dava aos seus comentários.

Porisso , Bino era querido, convidado para as reuniões e logo provocado, ao que ele retrucava sem pestanejar o que derspertava nos estranhos ira , nos amigos e parentes era motivo de muita gozação.

Eu tive o prazer em conhece-lo e inúmeras vezes  fazer parte da turma que o cutucava com vara curta. Algumas vezes, porem , para nós da antiga e na roda haviam pessoas que ainda não o conheciam , ele dava uma discreta piscadela e passava a dar empolgado,  as suas opiniões,  provocando um misto de riso e bronca nas pessoas.

Até hoje é lembrado com saudade pelos amigos e suas histórias são narradas com muita emoção e alegria.