Não tenho o hábito de expor o que penso, principalmente escrevendo, mas tenho sentido necessidade de desengasgar...

Estive pensando em quem eu sou e até que ponto tenho legitimidade para pensar da forma que penso.

Tenho duas profissões que se desdobram em algumas funções das quais tenho muito orgulho. Sou bailarina de nascença e por vocação e vivi exclusivamente da dança por muitos anos. Desde muito cedo observei os caminhos percorridos pelos que estavam à minha volta e percebi que precisava de alguma coisa que me desse certa margem de segurança, já que viver da cultura é sempre muito complicado. Não que as outras áreas não sejam, mas a cultura... Ah a cultura é muuuuito complicada!!! A escolha foi o Direito e virou paixão!!! ESCOLHI ser professora universitária e assim tornei-me duplamente artista.

Por que digo que minhas profissões se desdobram em muitas funções? A dança me proporciona além do imenso prazer de obviamente DANÇAR, a possibilidade de entrar em contato com outras formas de manifestar a arte: teatro, manipulação de bonecos, ensaiar as novas gerações, ensinar. O Direito me fez consultora de alguns institutos, docente universitária, Mestre e advogada (em escala infinitamente menor,quase não advogo).

Não contente com as diversas atividades que desenvolvo, recentemente me tornei empresária. Como tudo em minha vida, está me desafiando e exigindo muito esforço. Estou me privando de algumas coisas para investir na empresa sem comprometer minhas economias. Ter alguém que ajude nas tarefas domésticas foi uma das privações. Sacrifício em prol de um futuro ainda mais confortável que o presente. Faço agora as tarefas domésticas, para poder ter alguém que as faça na velhice, quando o corpo não estiver tão em forma. Não, não é confortável, mas faz parte de um plano maior. Não é confortável, mas é o preço para não me privar de outras coisas que me proporcionam mais prazer.

Trabalho e trabalho muito. Não por opção ou por falta dela, mas por vontade de realizar sonhos. Pela necessidade de me ver produtiva e poder ostentar pra mim mesma que consigo me proporcionar algumas coisas com o fruto do meu trabalho do meu esforço. Ninguém me dá, eu CONQUISTO.

E dói muito ouvir que faço parte de uma parcela burguesa da população, como se fosse motivo de vergonha e como se todos aqueles que possuem algum dinheiro ( no meu caso realmente não é muito, aliás é bem pouco) o tivessem conseguido de forma desonesta.

Dói muito ouvir que minhas conquistas são decorrentes das boas condições de ensino que me foram proporcionadas, como se isso fosse irregularidade, crime. Como se eu tivesse renegado o aparato público por ostentação ou por orgulho. Estudei em colégio particular, tive os melhores professores de dança e tudo isso custou caro, sim. Mas foi pago com o dinheiro honesto do trabalho de uma professora e de um militar que abriram mão de luxos, mas não de conforto, pra me proporcionar tudo o que tive. O poder público não foi capaz de me proporcionar nem um terço disso.

Acabo de concluir o Mestrado em uma Universidade Federal e vi de perto as deficiências estruturais. Depois de mais de vinte anos de estudos custeados diretamente com recursos próprios consegui receber os R$ 1500,00 ( que ajudam, sim)   de uma bolsa de estudos, mas com a condição de que eu não tivesse carga de trabalho significativa. Ou seja, em troca desse valor eu deveria ter dedicação quase exclusiva para os estudos, coisa que eu obviamente não fiz. Concluí o Mestrado trabalhando de domingo a domingo dentro do horário comercial e passando muitas madrugadas escrevendo a dissertação. Contrariei as regras. Devo ser julgada por trabalhar além do permitido e ainda assim cumprir com o que me foi proposto? Ainda assim ouvi, de uma única pessoa diga-se de passagem, mas ouvi, que aqueles que recebem dinheiro do governo não deveriam criticá-lo. Como se o governo me sustentasse para eu ficar descansando. Como se esse dinheiro não fosse apenas um "incentivo" para que eu contribuísse para o progresso da ciência. Como se fosse um favor...

Tenho muitos amigos como eu, que trabalham incessantemente e me orgulho deles. Tenho amigos da elite e me orgulho deles, não por estarem onde estão e sim por serem quem são: Lutadores, Trabalhadores, que conquistam seus objetivos, cumprem com suas obrigações, pagam seus impostos.

Amigos, não tenham vergonha de ser elite branca ou negra ou de qualquer cor. Vergonha é ser elite sem trabalhar, com o dinheiro roubado, desviado. Vergonha é proporcionar ensino e saúde deploráveis aos cidadãos e não ter a consciência pesada de se tratar no Sírio Libanês. Vergonha é querer convencer que a elite é do mal e não pensa na coletividade, simplesmente por discordarem das falcatruas que lamentavelmente se apresentam aos nossos olhos.

E diante desta reflexão chego à conclusão de que EU, sendo quem sou, tenho sim legitimidade para pensar como penso.

E ao contrário de muitos, posso andar de cabeça erguida e ser chamada com muita propriedade de "DANIELA, Coração Valente"

Na realidade o texto de hoje é da filha da Sueli a Daniela que também tem um belo texto e além de belo é valente.